EDITORA ABRIL: O MARKETING DA VIOLÊNCIA

A Editora Abril, cujo carro-chefe mercadológico é a anódina e ficcional Veja, e das penas-morais Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi, está promovendo uma campanha que pretende trocar exemplares de suas revistas por armas de brinquedos dadas por pais a crianças.

A estratégia é simples: o pai ou responsável leva a criança e a arma de brinquedo e troca por uma revista da editora. Eventualmente, ou sub-repticiamente, de acordo ou não com a aquiescência do pai, ele pode também ser agraciado com uma assinatura de alguma das revistas da editora. Nesta segunda-feira, em entrevista a uma rádio em Manaus, o diretor da distribuidora das revistas Abril para a cidade alertava para o caráter educativo da iniciativa, a qual pretende impedir que o brincar com a arma faça despertar a agressividade.

Desnecessário dizer que não interessa a um educador compreender tal jogada de marketing, a fim de não contaminar a sua práxis comunitária com este tipo de pseudoiniciativa humanitária.

Primeiro, porque a agressividade é uma característica inerente a espécie. Sem ela, não teríamos chegado ao atual estágio de desenvolvimento biológico, e sem ela, somos incapazes de enfrentar a existência e os obstáculos que ora surgem. Uma pessoa que não desenvolveu e não é capaz de distribuir afetivamente sua agressividade no meio social é perigosa. Vide o domesticado ex-presidente Bush Jr. Até os alunos de psicologia da UNIBAN sabem disso.

Segundo porque o entendimento de violência da Abril não passa por uma análise de ordem das suas manifestações sociais e por um exame racional de sua abrangência. É claro que uma arma de brinquedo na mão de uma criança cuja família tem por característica a ausência do convite ao existir, e o embotamento das relações afetivas, poderá causar danos no desenvolvimento da criança. Por outro lado, o brincar é atividade necessária a este desenvolvimento, seja ele afetivo, cognitivo, epistemológico, social, relacional, etc. E uma arma é um objeto dentre outros dentro de uma sociedade que padece de outras formas de violentação muito mais sutis e daninhas.

Um pai ou mãe que levam uma criança, cujo aparelho cognitivo ainda está em desenvolvimento, a tomar contato com a televisão ou com o shopping justify, promove uma violentação das capacidades cognitivas de uma criança muito maiores do que uma arma de brinquedo é capaz de realizar. Os elementos de ordem constitutivos de um shopping, sua ordenação arquitetônica, a disposição dos objetos, tudo está voltado para um embotamento da capacidade crítica e de elaboração. Não pense; compre. Igualmente, a programação da tevê, cujos signos passam pelo mesmo ordenamento semiótico do shopping, é igualmente daninha. Daí um dos motes da campanha do Conselho Federal de Psicologia é o de banir a propaganda infantil das telas. O que ainda é pouco.

A Editora Abril, cujo “jornalismo” e produção de revistas é toda voltada para estes mesmos códigos, elabora uma campanha que tem um objetivo muito mais marketológico que propriamente de efeitos pedagógicos. A Abril, a mesma cuja revista e carro-chefe, a Veja, acredita que seus leitores são incapazes de perceber a sua vertente anti-governista, e que a mesma utiliza a palavra jornalismo para ocultar práticas ficcionais travestidas de notícias, não está interessada em criar cidadãos críticos: tal iniciativa seria, para a editora, suicídio institucional. Fato é que os ataques diários ao governo e as iniciativas de promoção social que efetivamente vêm ocorrendo nos últimos sete anos não têm tocado o (raro) leitor da revista Veja. Lula foi eleito e reeleito, e segundo pesquisas, o seria novamente, a despeito de Globo, Record, Bandeirantes, Folha de São Paulo, Estadão, Veja, Azevedos e Mainardis.

Com esta iniciativa que procura ocultar o alavancamento das vendas da combalida empresa editorial (que paradoxalmente continua a obter contratos lucrativos com o mesmo governo que diuturnamente ataca em suas páginas), a Abril demonstra que tem o seu leitor em conta, ou num entendimento ou noutro:

Ou crê que ele cairá na armadilha marketista por ser incapaz de realizar um ato racional e desmontar o engôdo que ela, com sua inteligência superior, criou, ou;

O corpo editorial sofre deste embotamento cognitivo-epistemológico, impedindo-o de diferenciar marketing (o discurso sobre o vazio) de ação social, tanto quanto confunde jornalismo com defesa de interesses corporativos.

Acreditamos, pois, na segunda opção.

(artigo também publicado no Bodega Cultural).

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s